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14/07/2007

antropologia cultural
BREVE HISTÓRIA DA PORNOGRAFIA

por Ligia Cabus (Mahajah!ck)

Esculturas do Templo de Kajuharo, Índia, representam posturas do Kama-Sutra, um dos mais antigos manuais de comportamento sexual. O erotismo e a pornografia são temas presentes em todas as artes desde o  alvorecer da Humanidade: pinturas, esculturas, artes dramáticas, música, literatura, fotografia. Sua característica essencial é a representação de situações de natureza sexual. A pornografia existe desde a pré-história, quando o ato sexual começou a ser associado a força sobrenaturais.

Imagens pornô são encontradas na pintura rupestre desde o Paleolítico, período no qual, embora sejam mais comuns as figuras de animais, as cenas de caça, a genitália humana e a cópula também também aparecem. Na Inglaterra, em Creswell Crags, foram descobertas pinturas como esta, representando a genitália feminina, com mais de 12 mil anos. Na Alemanha, em 2005, obras semelhantes foram datadas em 7 mil e 500 anos.

Cenas sexuais são comuns na cerâmica da Grécia Antiga onde figuram relações homossexuais em seus primeiros registros. Esculturas do falo ou fálicas são achadas em locais de culto religioso como no templo de Dionísio, em Delos.  A arte erótica grega do período Helenístico teve seus modelos e motivos largamente copiados entre os romanos, mais tarde. O sexo também aparece em pinturas, lâmpadas e outros objetos da Grécia Antiga. Os gregos representaram o heterossexualismo, o homossexualismo e também as bestialidade, o sexo com animais.

 

A pornocultura existe desde o começo da história humana. Pesquisadores descobriram pinturas rupestres, pré-históricas, representando o coito junto com petroglifos com cenas de caça. Em civilização, as primeiras figuras pornográficas apareceram no manual de comportamento indiano chamado Kama-Sutra. O Kama-Sutra é composto de vários capítulos que falam de diferentes aspectos da vida social mas, a vida sexual e amorosa constituem, talvez, os trechos mais interessantes e também os mais conhecidos deste manual mundialmente conhecido. Mas a representação do sexo na cultura hindu não se restringe ao Kama-Sutra. Esculturas porno-eróticas decoram os templos de Kajuharo mostrando posturas de relação sexual que exigem um preparo físico verdadeiramente iogue para serem praticadas.

A palavra porn, de origem grega, significa "figura indecente" ou "retrato de prostitutas". Os gregos pintavam painéis com cenas de sexo nas paredes de seus bordéis. Uma casa que possuía um painel como aquele era claramente declarada ou entendida como uma casa de prostituição, uma casa onde as mulheres vendiam seus favores amorosos em troca de dinheiro.

Quando o cristianismo começou a dominar a Europa e certas regiões da Ásia, África, e depois Américas e Oceania, a doutrina católico-romana praticamente proibiu as artes representativas de trabalharem qualquer tema que não fosse a vida dos santos, passagens da Bíblia ou dos Evangelhos. entretanto, este cenário mudou e a pornografia floresceu na Renascença.

 

Giulio Romano ou Giulio Pipi era protegido de Rafael, que morreu em 1520. Depois da morte do mestre, Giulio completou o trabalho que estava sendo feito para o Papa Clemente VII. Mas Clemente recusou-se a pagar o artista no mesmo padrão que pagaria a Rafael. Giulio protestou produzindo, nas paredes do Vaticano, 16 pinturas representando sexo explícito. As pinturas foram destruídas e Giulio foi banido de Roma. Passou o resto de seus dias na corte de um notável libertino da Renascença, Frederico Gonzaga. As pinturas, denominadas I Modi [As Posições], inspiraram gerações de outros pintores.

 Marcantonio Raimondi, fez gravuras reproduzindo o trabalho de Giulio. Estas gravuras, que ilustraram um livro de sonetos vulgares de Pietro Aretino, tornaram-se as mais famosas representantes da pornocultura Ocidental. Os originais das gravuras de Raimondi, também desapareceram porém, o barão Frederick Waldeck (1786-1875) havia copiado as imagens, que foram exibidas na França em 1892 junto com a republicação do livro de Arentino em uma edição colorida e limitada a 500 exemplares. DIR.: Ilustração do livro Julliete, do famoso libertino Marquês de Sade, edição alemã de 1789. LINK: VEJA TODAS AS ILUSTRAÇÕES In World Museum of Erotic Art

LINK: TODAS AS GRAVURAS DE GIULIO ROMANO In ALL ART
 

 

Nesta época, ficou célebre o episódio de querela entre o Papa Clemente VII e aprendiz de Rafael, o artista Julio Romano [ou Giulio Pipi Romano]. Aparentemente, o Papa recusou-se a pagar um trabalho de Romano que, em revanche, pintou todo o hall do Vaticano com afrescos pornôs. O fato causou escândalo que se espalhou por toda a Europa e antes que os blasfemos afrescos fossem removidos vários artista profissionais fizeram reproduções das imagens que serviram de matrizes para muitas outras cópias e, assim, a arte pornográfica de Julio Romano se espalhou no Velho Mundo com auxílio precioso dos primeiros maquinários de imprensa.

Durante o Iluminismo, muitos pensadores, especialmente na França, começaram a usar a pornografia como meio de crítica social e sátira, freqüentemente, condenando a Igreja Católica e a repressão sexual em geral. Histórias e ilustrações, vendidas nas galerias do Palais Royal, junto com os serviços das prostitutas, eram anti-clericais e apontavam o comportamento hipócrita de religiosos que estavam longe de cumprir seus votos de castidade celibatária.

No fim do século XVIII a França era o país onde a pornocultura mais havia se expandido. A pornografia estava em cartas de baralho, cartões postais, posters etc.. Hoje, aquelas imagens seriam consideradas inocentes porém, na época, para muitas pessoas eram imagens escandalosas e no século XIX foram realizadas campanhas contra estas representações. Cidadãos apanhados divulgando pornografia eram levados à corte [de justiça] e obrigados a pagar multas. Muitos escritores, como Flaubert, Zola e Baudelaire, considerados clássicos atualmente, foram interpelados pela justiça sob acusação de divulgar elementos pornográficos em seus trabalhos.

 

Nos anos de 1920 surgiram as Tijuana Bible, impressos com enredos e desenhos pornográficos.  A publicação típica consistia de oito quadros em tiras retratando personagens de quadrinhos e/ou celebridades em situações pornográficas. LINK IMAGENS: TIJUANA BIBLES
 

 

Fotografia & Revistas

Avanços tecnológicos na área de reprodução de imagens, fotografia e cinema, logo foram colocados à serviço da pornografia. O primeiro daguerreótipo [chapa fotográfica] apareceu em 1855 e o primeiro filme pornô foi produzido um ano depois dos irmãos Lumiere inventarem o cinema. Foi um enorme avanço para os negócios do ramo.

Em 1880, novas técnicas de reprodução de imagens incrementaram o "negócio da pornografia", que se tornou um fenômeno de massa. Os impressos vendiam muito. Revistas expunham o nu e o sexo softcore, a pornografia leve, na época, um escândalo. Muitas destas revistas eram apresentadas como "de arte", entre elas: Photo Bits, Body in Art, Figure Photography, Nude Living and Modern Art for Men Em 1900, na Inglaterra, foi lançada a revista Health and Efficiency.

Nos Estados Unidos, nos anos de 1920, apareceram os comic books, conhecidos como Tijuana Bible. Esses pequenos impressos existiram até o advento das revistas masculinas coloridas. Os comic books eram formatados como livretos de mão e cartões.

Em 1940, foi cunhada a palavra pinup, para designar figuras eróticas retiradas de páginas de revistas e calendários e pinned up, ou "penduradas" na parede pelos soldados da Segunda Guerra Mundial. Betty Grable e Marilyn Monroe foram duas mais populares pin ups. Na segunda metade do século XX, apareceram as revistas masculinas, como a Play Boy e a Modern Man, dos anos de 1950. Trabalhavam com nú e o semi-nu, evitando a exposição da genitália, como ainda hoje, nesta linha editorial.

Em 1965, na Inglaterra, foi lançada a Penthouse. As fotos da Penthouse tinham uma ênfase mais agressiva, usando o recurso da pose disfarçada, o olhar indireto para a câmera, como se a modelo estivesse sendo flagrada em um momento de intimidade. Na Penthouse havia o nu frontal completo, considerado como uma imagem indiscutivelmente pornográfica e, não mais, erótica somente. Nos anos de 1970, o sexo explícito começou a ser publicado e, nos anos de 1990 eram comuns as fotografias de penetração sexual, homossexualismo, sexo grupal, masturbação e fetiches, em revistas ditas hardcore, como a Hustler.

 

Cartaz italiano do filme Garganta Profunda. "Garganta Profunda" lançado em 1972, foi produzido por menos de US$ 25 mil [dólares], o filme se tornou o mais lucrativo de todos os tempos na época. Ao ser lançado em salas adultas no centro de Manhattan tornou-se o estopim de uma inesperada tempestade social e política. Uma análise sobre como o filme influenciou na revolução sexual em curso na época e o contraste entre as modestas pretensões de seus produtores e o sucesso que fez nas telas.

DIR.: O Império dos Sentidos (1976), um dos títulos básicos assinados pelo japonês Nagisa Oshima, apresenta-se hoje como um filme que está além de seu tema. Exibido no Brasil no começo dos anos de 1980, época em que o fim da ditadura militar trouxe a liberação tanto de filmes políticos considerados perigosos quanto a enxurrada de realizações de sexo explícito (os atores já não simulavam como nas pornochanchadas brasileiras, mas mantinham de fato relações sexuais; a câmara mostrava descaradamente a penetração), o trabalho de Oshima, a despeito da projeção artística do diretor, foi visto então com uma certa desconfiança pelos espectadores tidos por sérios. In DVD MAGAZINE

 

Cinema


Aquele primeiro filme, condenado por incitar as "paixões animais", chamava-se The Kiss, e foi lançado em 1896. Atores populares, John C. Rice e May Irwin beijavam-se por três minutos. Os críticos disseram que o filme era "uma demonstração de sensualidade brutal que um homem não pode tolerar". Mas, apesar das críticas, o filme tornou-se incrivelmente popular. Em Moscou, foi exibido em grande tela no Metropol hotel, com ingressos custando 5 rublos, salário semanal de um trabalhador.

Em 1968, na Dinamarca, pela primeira vez, a pornografia foi legalizada, na Dinamarca; todavia, enquanto isso, o Decameron de Boccaccio e O Asno de Ouro de Apuleio foram proibidos por sua indecência. Então, M.C. van Hellen e Alex de Renzi fizeram um filme sobre o fenômeno escandinavo do "cinema de sexo" e exibiram a película nos cinemas norte-americanos. O sucesso foi enorme e Renzi se estabeleceu naquele país produzindo filmes pornográficos.

Aos poucos, portanto, a sociedade já não sentia tanta vergonha de seu interesse em sexo. Hugh Hefner começou seu negócio de calendários de bolso, com a nudez de Marilyn Monroe, fotos que haviam sido publicadas na revista Play Boy que ia se tornando uma edição respeitável.  

Em 1972, o produtor Gerard Damiano lançou o filme Garganta Profunda [The Deep Throat], sobre uma mulher que se queixava ao seu médico por não ter prazer nas relações sexuais. O médico explica que a mulher tinha "o clitóris" na garganta. O filme tem 15 cenas de sexo oral. O produtor gastou somente seis dias para fazer Garganta Profunda e os atores trabalharam por baixos salários. O filme tornou popular todo o elenco e ainda é um recorde em termos de custo reduzido. Garganta Profunda inaugurou uma Era de Ouro para a pornografia. Artistas e modelos famosos apareceram em milhares de filmes pornográficos.

Hoje, a pornografia é legalizada quase em todos os países, com exceção dos países muçulmanos, Índia, China, Rússia e em alguns países da América Latina. Na Rússia não existe uma definição exata de pornografia, embora a circulação de material deste tipo seja considerada crime. Nos Estados Unidos, mais de 500 filmes pornô são produzidos a cada ano e o faturamento anual deste negócio gira em torno de 4 a 6 bilhões de dólares.

 

FONTE: History of pornography: scandalous beginning and habitual reality
In PRAVDA ENGLISH publicado em 11/07/2007
tradução & pesquisa: Ligia Cabús

 

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edição: Mahajah!ck

 

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