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VICO

trechos e comentários

PRINCÍPIOS DE UMA CIÊNCIA NOVA [1725 / 1730 ]

AUTOR: GIAMBATISTA VICO 1668 - 1744

Filosofia histórica, metafísica, religião e semiótica

O livro apresenta o raciocínio filosófico-investigativo em torno de variados fenômenos da sociabilidade e da humanização, tais como a linguagem, a ordem política e a religiosidade mitológica. Defendendo a existência de Deus, à qual se refere como "a Providência Divina", o autor desenvolve uma análise histórica dos progressos de sociedades e indivíduos buscando pontos de conciliação entre a ciência e a religião.

 

T R E C H O S

CAPÍTULO II

34- Falando sobre o objetivo de sua Ciência Nova, Vico observa:

Idéias uniformes, originadas junto à totalidade de povos entre si desconhecidos devem ter um motivo comum de verdade. (... 35) Esta será outra grande tarefa desta Ciência: descobrir nelas [nas tradições populares] as razões da verdade, que, com o correr dos tempos e com o modificar-se das línguas e dos costumes, até nós chegaram [as razões] recobertas de falsidade.

Trata-se da investigação e da demonstração argumentativa do autor sobre a universalidade dos mitos, das narrativas arcaicas semelhantes, se não, iguais, de diferentes povos da Terra; a coerência, independente de espaço e tempo, seria indicativa de um conteúdo de verdade histórica nos relatos aparentemente concebidos e normalmente interpretados como fantasias. Outros pensadores, em especial os Ocultistas, também realizaram laboriosos estudos omparativos da simbologia mitológica de culturas diversas e apontaram tais semelhanças. Em A Doutrina Secreta, Madame Blavatsky, criadora da Sociedade Teosófica, aponta com minúcias vários exemplos de narrativas e figuras míticas coincidentes entre relatos hindus, chineses, judaicos, europeus etc..

4 NESTE SITE, trechos dos volumes I e III, Cosmogênese e Antropogênese , de A Doutrina Secreta.

 

E NO LIVRO II - CAPÍTULO I

70 - ... esta Ciência vem a ser, de um só golpe, uma história das idéias, costumes e fatos do gênero humano. E dessas três provirão os princípios da história da natureza humana, que por sua vez serão os princípios da universal, que ainda agora parece carecer de seus princípios.

AFORISMO

31 - fama crecit eundo = a fama cresce à medida que se propaga

minuit praesentiam fama = a presença diminui a fama

Omne ignotum pro magnifico est = Tudo que é desconhecido é tido como maravilhoso.

33 - Os homens, que não sabem a verdade das coisas, procuram ater-se ao certo, a fim de que, não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência, ao menos a vontade repouse sobre a consciência.

Os arquétipos possuem um conteúdo, uma orientação de valores e condutas bem conhecidas. O arquétipo é a ancora e o porto seguro da identidade, do reconhecimento de si mesmo.

34 - "O senso comum é um juízo despido de qualquer reflexão, comumente experimentado por toda uma ordem, por todo um povo, por toda uma nação ou por todo o gênero humano. (...) .. esta dignidade estabelece que o senso comum do gênero humano é critério ensinado às nações pela Providência Divina... "

Aqui Jung subtituiria a Providência Divina pelo compartilhamento de valores arraigados no inconsciente coletivo num processo corrente, ininterrupto e sobretudo atual.

37 - Vico defende a hipótese de uma língua mental, em tempos arcaicos, comum a todas as nações:

Indispensável é que exista na natureza das coisas humanas uma língua mental comum a todas as nações.

39 - SOBRE OS GIGANTES

Os gigantes foram, de sua natureza, dotados de ampla estatura, quais no extremo sul da América, no país chamado de los patacones, viajantes afirmam ter encontrado, muito broncos e ferozes... De gigantibus, a respeito deles se aduzem as razões, em parte físicas, em parte morais, observadas por Júlio César e por Cornélio Tácito, quando relatam a estatura gigantesca dos antigos germanos. Estes últimos relatos foram por nós levados em conta, tanto mais que se põem de acordo quanto à educação ferina das crianças.

40 - ... os egípicios reduziam todo o tempo do mundo que os precedera a três idades: a dos deuses, a dos heróis e a dos homens. ... ao longo dessas três idades teriam sido faladas três línguas, correspondentes passo a passo com as três idades, e que foram: a língua hieroglífica ou sagrada; a língua simbólica ou por símiles, que foi a heróica, e a epistolar ou dos homens do vulgo, por sinais convenionais aptos a se comunicarem as corriqueiras necessidades da vida deles.

 

MITOS GREGOS 6

Zeus ou Júpiter e Tétis     Saturno devorando o filho, de Goya     Poseidon ou Netuno, divindade dos mares, Oceanos e Terremotos, mitologia ligada a Atlântida

Vico recorre à mitologia grega em numerosos exemplos e compara as narrarivas helênicas com os relatos egípcios e judeus. Saturno (Cronos), Zeus (ou Júpiter) e Netuno são imagens recorrentes. O primeiro, representa ainda a raça dos Titãs, gigantes, tal como descrito na Odisséia, de Homero. Pesquisas mais recentes indicam que Netuno é uma divindade mais antiga do que geralmente registra a "história oficial"; Netuno ou Poseidon aparece nos relatos sobre a lendária Atlântida.
Fonte das Ilustrações: ARTCYCLOPEDIA

40 - O PRIMEIRO DOS 3 PRINCÍPIOS DA CIÊNCIA NOVA:

... o mundo dos povos antigos começou em todas as partes pelas religiões... Onde quer que os povos mediante as armas se enfureceram, de modo a que não tenham mais ali vigência as leis humanas, o único poderoso meio de os serenar é a religião.

41 - AFORISMO: O espanto é filho da ignorância; e quanto maior o efeito admirado, tanto mais, proporcionalmente, cresce o espanto.

AFORISMO: Tanto mais robusta a fantasia, quanto mais débil o raciocínio.

O mais sublime ofício da poesia é conferir sentido e paixão às coisas insensatas. E é propriedade [característica] dos infantes o tomar coisas inanimadas entre as mãos e, entretendo-se, falar-lhes como se elas fossem pessoas vivas. Esta dignidade filológico-filosófica prova-nos que os homens do mundo nascente (fanciullo) foram, por sua própria natureza, sublimes poetas.

 

UNIVERSALIDADE DOS MITOS

43 - "Júpiter fulmina e aterroriza os gigantes. E cada uma das nações gentílicas teve o seu Júpiter. ... Cada nação gentílica contou com seu Hércules. Varrão, entendidíssimo das coisas das antigüidades, chegou a enumerar quarenta deles.

44 - ... Tais fábulas são verdades ideativas ... a verdade poética é uma verdade metafísica ...

 

SOBRE O PENSAMENTO FICCIONAL

45 - ... os caracteres poéticos... constituem a essência das fábulas... [1] a natural propensão do vulgo em fingir... [2] ... os primeiros homens, como infantes do gênero humano, não sendo capazes de formar gêneros inteligíveis de coisas, tiveram natural necessidade de estabelecer ficcionalmente os caracteres poéticos, que são gêneros ou universais fantásticos, como que reduzindo a determinados modelos, ou até retratos ideais, todas as espécies particulares semelhantes, cada uma a seu devido gênero... [3] ... o princípio das verdadeiras alegorias poéticas ... [confere às fábulas] significados unívocos, não análogos, de diversos particulares compreendidos sob os seus gêneros poéticos. A este [princípio] chamaram de diversiloquia, isto é, falares que compreendiam em um conceito geral as diversas espécies de homens, fatos ou coisas.

48 - § 59, 60 - SOBRE A ORIGEM DAS LÍNGUAS

Os homens aliviam as grandes paixões através do canto, como se constata nos sumamente batidos por dor ou por alegria. (...) ... os autores das nações gentílicas teriam refocilado num estado ferino de animais mudos e que, por apatetados, não se tivessem despertado senão por pressões de paixões violentíssimas, chegando, pelo canto, às suas primeiras línguas.

SEMIÓTICA 6

48 - § 63 - A mente humana inclina-se, naturalmente, mediante os sentidos, a fazer-se presente no corpo, e, com muita dificuldade, por meio da reflexão, a entender-se a si mesma. (...) universal princípio da etimologia em todas as línguas, nas quais os vocábulos são transpostos dos corpos e das prorpriedades dos corpos para a significação das coisas da mente e do espírito.

 

LIVRO SEGUNDO

Capítulo II

DA METAFÍSICA POÉTICA

75 - ... a sabedoria poética ...foi a primeira forma de sabedoria da gentilidade.

76 - ... poetas, que, no grego significa "criadores". Eis ... as três tarefas que deve cumprir a grande poesia: inventar sublimes fábulas, adequadas ao entendimento popular, e comovê-lo [o entendimento popular] ao máximo para ao fim... atingir o fim que si próprio prefixou, qual o de ensinar ao povo a agir virtuosamente...

 

Vico comenta o nascimento do mito de Júpiter e o animismo como resultado do terror do homem primitivo diante da fúria dos elementos, cujas "vozes", evocam a fisiologia de "criaturas gigantes" cujos atos e pensamentos resultam nas catástrofes naturais como o Dilúvio, marco da história da humanidade 6

77 - ... a mente humana leva tomar a natureza pelo seu efeito...

[Em remotíssimas eras pré-históricas] os homens, ... a urrar e murmurar, explicitavam suas violentíssimas paixões; imaginativamente cogitaram que o céu fosse um formidável corpo animado. E por tal prisma chamaram Júpiter, primeiro deus das gentes chamadas "maiores", o qual, com o silvo dos raios e o fragor dos trovões [imaginaram] lhes quisessem dizer alguma coisa. E começaram dessa forma a por em exercício sua natural curiosidade, filha da ignorância e mãe da ciência, e que engendra, com o despertar da mente que provoca, a estupefação... E sempre que admiram os estupendos efeitos do imã sobre o ferro... ainda asseveram: que o imã teria uma oculta simpatia pelo ferro, convertendo, por tal modo, toda a natureza num vasto corpo animado, que sente paixões e afetos...

E mais adiante - p 78 6

... os primeiros homens, que falam por gestos, em virtude de sua natureza creram que os raios e os trovões fossem acenos de Júpiter... E creram que Júpiter comandava por acenos, e que tais acenos fossem palavras reais, sendo a natureza a linguagem de Júpiter.

Em "Corolários Acerca das origens da locução poética... " p 113 6

... a locução poética nasceu, em virtude da necessidade da natureza humana, ANTES da locução prosástica assim como as tais fábulas, como universais fantásticos, antes dos universais lógicos (ragionati) ou fiosóficos...

Vico assinala, ainda, que as locuções filosóficas têm sua origem no contexto do "falar prosaico".

SOBRE MAGIA p 119 6

Também para os Persas, Júpiter representou o céu, enquanto se acreditava as coisas ocultas para o homem. Os eruditos de tal ciência [conhecimento] chamaram-se "magos". E igualmente se chamou "magia", seja a consentida, que é a ciência [o conhecimento] natural das maravilhosas forças ocultas da natureza, seja a proibida, ciência [o conhecimento] das [coisas, fenômenos] sobrenaturais. Neste último sentido diz-se "mago" por "feiticeiro".

 

* matabaratha